Exploring what it means to be human, one story at a time.
Amelia: Leitura de The Gates of Horn and Ivory - Chorus
Perséfone sorriu, sentindo a pequena pedra de cristal aquecer-se na palma da mão. Guardava nela a beleza dos seus jardins, o espetáculo esplêndido do rio Flegetonte, deslizando como uma serpente de fogo por entre as suas margens de pedras preciosas e escuras, os portões de bronze, tão intimidantes na sua crueza impenetrável, Hades e o seu lar, os risos das musas, a tonalidade rosada das Ilhas Afortunadas ao longe. Toda a sua vida estava condensada naquele pequeno cristal, que passava do dourado ao roxo quando a luz do sol lhe tocava.
—Perséfone, querida! Que alegria ter-te de volta a casa!
Deméter recebeu a filha efusivamente à entrada da gruta de Cumas e presenteou-a com o tradicional feixe de cevada.
O oráculo de Cumas fez uma vénia profunda a ambas as deusas, ocultando um olhar ressentido, enquanto Deméter realizava uma avaliação crítica da filha, perscrutando-a de cima a baixo em busca de algo que exigisse atenção.
—Estás mais magra, Perséfone. Tens a certeza de que estás a comer o suficiente no submundo? Estou preocupada.
—Estou exatamente igual, mãe. Como bem sabes, nós nunca mudamos.
—Não te preocupes. Vamos tratar de te alimentar devidamente assim que chegarmos ao Olimpo. Preparei-te uma lista de tarefas, apenas para começares a exercer os teus deveres. Dioniso quer falar contigo. Tenta arranjar tempo para uma reunião com ele assim que for possível, sim?
—É sobre as Dionisíacas?
—Terás de lhe perguntar, eu não sei. Lamento apressar-te, mas teremos de partir para Epidauro amanhã cedo; têm estado à nossa espera, há uma grande multidão este ano e os sacerdotes acham que será necessário mais do que um dia para atender a todas as necessidades. Enquanto estivermos em Epidauro, a basilissa precisa de falar contigo. Não sei ao certo sobre o quê.
—É sobre o casamento sagrado?
—Ela não disse.
Deméter lembrou-se da pose régia da basilissa, cuja elegância impecável sempre admirara, e desejou que a sua filha, que até se conseguia arranjar bem se fizesse um mínimo esforço, a emulasse. A classe não se comprava, tinha de se nascer com ela, e a rainha de Atenas tinha-a de sobra. Voltou a olhar para a filha, que poderia ser a joia do Olimpo se não insistisse neste visual de camponesa e começasse a usar algo mais substancial do que flores no cabelo.
Tinha de admitir que dificilmente se poderia ir para os campos vestida para uma festa, mas a filha era agora uma rainha e deveria ter subalternos para fazer isso em seu lugar.
—Perséfone, quantas vezes tenho de dizer isto? Tens de te esforçar mais no teu vestuário, pareces... —não encontrava palavras para o seu desânimo. —Mortal! Não tens joias? Não percebo como é que o teu marido não nota que andas com trajes tão sem graça! Como vão as coisas entre vocês os dois?
Deméter observou a filha —que trajava o seu quitão de seda branca, o cinto e as sandálias douradas, mas pouco trazia em termos de joias e pedras preciosas —em busca de sinais reveladores de um casamento infeliz e depois, desapontada, passou ao comentário seguinte.
—Sabes, o Ares pergunta sempre por ti.
Perséfone fechou o punho em torno da pequena pedra de ametrina, o seu minúsculo ponto fixo na realidade, e agradeceu aos deuses por ter conseguido fugir antes que a mãe escolhesse aquele que considerava ser o marido apropriado para ela. Ares! Por todos os deuses do Olimpo!
Fez uma nota mental para recordar Hades da promessa que lhe fizera: que, da próxima vez que o deus da guerra por acaso se perdesse no Tártaro, seria muito difícil de encontrar; e devolveu um sorriso educado à mãe antes de mudar de assunto.
—Pois. Mãe, é tão bom ver-te! Como tens passado?
Deméter abanou a cabeça, irritada por ver os seus esforços de casamenteira frustrados, e respondeu.
—Como posso passar, Perséfone? A pensar na minha única filha presa naquele reino medonho. —As imagens do submundo trouxeram-lhe à memória a única tarefa que deixara fora da lista. —Tivemos de reagendar a viagem à Anatólia para a próxima semana; a península está coberta por um nevoeiro denso e Hélio não gosta de viajar através dele. Estás a ouvir, filha?
—Claro.
—Pareces distraída. Podes prestar atenção, por favor? Isto é importante. As mulheres de Lócris estão a planear um festival em tua honra, ao qual se espera que compareçamos no final de maio. Seria de pensar que ficarias feliz por ter uma vida social decente depois de estares fechada e sozinha debaixo da terra, sem nada para fazer durante todo o inverno. A culpa é minha. Não devia ter cedido a Zeus nem aceitado este compromisso horrível. Antes toda a terra reduzida a cinzas do que entregar a minha única filha a... —conteve o epíteto, dissuadida pelo olhar exasperado de Perséfone. —Enfim, agora está tudo decidido. Não há muito que eu possa fazer.
—As plantações já começaram?
—Claro que não! Nem sonhariam começar sem a tua bênção! Quem seria tão insensato ao ponto de não temer a ira dos deuses?
—Devíamos começar por aí —respondeu Perséfone. Aquelas raízes de cevada saudáveis no Submundo tinham-lhe dito que a estação começara cedo, e temia que as colheitas atrasassem se não fossem plantadas imediatamente.
Deméter ficou surpreendida com o comentário da filha, que soou bastante maduro, e passou a falar de negócios.
As duas discutiram as complexidades da plantação durante boa parte da viagem, e Deméter enviou as notas da conversa através de Hermes, para que, quando chegassem ao Olimpo, um exército inteiro de dríades e ninfas estivesse à espera para executar as suas instruções.
Depois disso, retirou-se para os seus pensamentos, observando a paisagem recém-despertada e ponderando como a sua filha ingénua perdera a oportunidade de conseguir um enlace tão auspicioso como Ares, que parecia demonstrar interesse nela!
Perséfone poderia ser agora nora de Hera e Zeus.
Falar de privilégio!
Poderia ter escolhido as suas missões, templos maiores, adoração infindável. Talvez até tivesse a sua própria cidade, como Atena, para a adorar exclusivamente. Que desperdício!
Certo, Ares era um bruto, mas quem queria saber? O que mais se podia esperar de um deus masculino? Todos eles se desviavam, mais cedo ou mais tarde; o que importava era o estatuto da sua filha e o favor do Olimpo.
Do outro lado da carruagem, Perséfone sorriu, sentindo a pequena pedra de cristal aquecer-se na palma da mão.
Guardava nela a beleza dos seus jardins, o espetáculo esplêndido do rio Flegetonte, deslizando como uma serpente de fogo por entre as suas margens de pedras preciosas e escuras, os portões de bronze, tão intimidantes na sua crueza impenetrável, Hades e o seu lar, os risos das musas, a tonalidade rosada das Ilhas Afortunadas ao longe.
Toda a sua vida estava condensada naquele pequeno cristal, que passava do dourado ao roxo quando a luz do sol lhe tocava.
A realidade tem destas estranhezas: todas as riquezas do mundo não nos conseguem fazer sentir tão seguros como um único símbolo.
—Bem-vinda a casa, senhora —Angelos prostrou-se a seus pés, aguardando a bênção tradicional.
—Louve-se a sabedoria do Olimpo! —Perséfone acedeu prontamente. —Levanta-te, daimona. Tive saudades tuas.
—Não mais do que eu tive de si, senhora.
—O que tens para mim? —Perséfone continuou a caminhar, com Angelos ao seu lado, percorrendo o longo pergaminho de atividades e pedidos que a sua daimona tinha reunido durante o inverno.
—O Telestério enviou notícias: os sacerdotes gostariam de conferenciar consigo sobre o ritual assim que tiver um momento. O calendário de plantação está pronto para a sua bênção. Parece ser bastante urgente. Houve uma situação com a sibila de Cumas, algo relacionado com o Cérbero. Não sei os detalhes, mas Zeus quer falar consigo pessoalmente. Disse-lhe que estaria disponível amanhã, talvez antes de partir para Epidauro.
—Onde está o meu Cérbero agora? —Perséfone virou-se para a sua daimona, em pânico.
—No Hades, senhora, tanto quanto sei —respondeu Angelos, surpreendida. —Não deveria estar lá?
—Esquece —Perséfone franziu o sobrolho, pensando que precisava de ver Hermes antes da reunião com Zeus de qualquer forma, para que pudessem alinhar as suas histórias, e então descobriria o que acontecera ao seu cachorrinho.
—A Hera está descontente com as Hespérides; parece que não são o grupo mais brilhante e andam a desleixar-se nos seus deveres —interrompeu Deméter.
—O que é que isso tem a ver comigo?
—São tuas súbditas.
«Claro que são», Perséfone amargurou-se com o facto de as filhas de Nix, que não punham os pés no submundo desde o casamento de Hera, ainda serem consideradas da sua responsabilidade.
—Vês? Se não te tivesses precipitado num casamento imprudente, poderias ter tido um pomar tal como o de Hera! Toda a gente a inveja por aquelas maçãs douradas!
Perséfone continuou a caminhar em silêncio.
—Diz alguma coisa, filha! Valham-me os deuses, às vezes apetece-me sacudir-te, só para saber se ainda estás viva. Fala comigo!
—As maçãs douradas podem ser muito úteis, mãe.
—Paciência! Perdeste a tua oportunidade. Também não poderias competir com Afrodite —ponderou, amargurada. —É tão frustrante, Perséfone! Tinhas todas as vantagens da criação e continuas a definhar neste estado de quase morte, como se nada fizesse sentido para ti. Não tens orgulho? Não tens ambições para ti mesma? Metade do tempo pergunto-me se ainda aí estás.
Este é um excerto do romance The Gates of Horn and Ivory, que pode ser encontrado aqui.
Thank you for reading.
If something here stays with you, you’ll find more stories, essays, books, and spoken work at francisrosenfeld.com.
© 2026 Francis Rosenfeld. All Rights Reserved.
Comentários
Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar!